O número de municípios brasileiros em situação de seca extrema passou de quatro, em agosto, para 68 em outubro de 2026, segundo dados parciais divulgados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O levantamento integra o novo boletim do Painel El Niño, publicado nesta quinta-feira (29) pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e outras seis instituições federais. O documento também aponta que o fenômeno climático deve continuar se intensificando, com possibilidade de atingir intensidade muito forte a partir de novembro.
A piora não se limita à classificação mais intensa da estiagem. Os municípios em seca severa aumentaram de 153 para 232 no mesmo intervalo, conforme o Índice Integrado de Seca (IIS-3), utilizado pelo Cemaden. O avanço ocorre principalmente no Nordeste, enquanto as projeções climáticas indicam chuvas abaixo da média em áreas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Os dados constam do Boletim Mensal nº 5 do Painel El Niño 2026-2027, elaborado conjuntamente pelo Inmet, Inpe, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e Censipam.
Nordeste concentra avanço da seca, com áreas em situação excepcional
Alagoas, Bahia, Sergipe e Pernambuco aparecem entre os estados com maior incidência do agravamento observado pelo Cemaden. Em pontos de Alagoas, Bahia e Sergipe, o monitoramento já identifica seca excepcional, classificação mais grave do índice.
Na Região Norte, Roraima e Amazonas também registraram aumento expressivo de municípios nas categorias de seca severa e extrema.
Outro indicador reforça a preocupação. Segundo o Monitor de Secas da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a área do Nordeste atingida por seca grave passou de 16% para 28% entre agosto e setembro. No Norte, a proporção dobrou, de 4% para 8%.
A combinação de escassez de chuva e temperaturas elevadas pode dificultar a recuperação da umidade do solo e ampliar as pressões sobre os recursos hídricos. Em 23 de outubro, 103 dos 411 açudes acompanhados pela ANA no Nordeste e no semiárido mineiro apresentavam armazenamento inferior a 20% da capacidade.
Agricultura familiar tem 380 municípios em diferentes níveis de alerta
Os efeitos da estiagem também aparecem nos indicadores voltados à produção rural. Em outubro, o sistema Alerta de Seca na Agricultura Familiar (Alerta-ASAF), do Cemaden, identificou 380 municípios brasileiros com algum nível de alerta para possíveis impactos da falta de chuva.
Desse total, 134 estavam classificados no nível Alerta, 75 em Atenção e 171 em Observação. As situações mais preocupantes se concentravam em áreas do Norte e na faixa leste do Nordeste, especialmente em Alagoas, Sergipe, Pernambuco e Bahia.
O levantamento identificou ainda 455 assentamentos rurais em condições de seca severa ou mais intensa, com maior concentração em Sergipe e Alagoas.
Nas áreas indígenas, 70 polos de saúde estavam classificados em seca severa, segundo dados parciais de outubro. Localizados principalmente em Roraima e no Amazonas, além de três unidades no Amapá, esses territórios reúnem aproximadamente 86 mil pessoas potencialmente afetadas.
Para o campo, as consequências dependerão da distribuição das chuvas nos próximos meses. O boletim prevê dificuldades para o desenvolvimento de culturas de sequeiro, redução da disponibilidade de forragem e maior demanda por água para os rebanhos em áreas do Norte e Nordeste.
No Matopiba, região agrícola formada por partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a deficiência hídrica no início do trimestre poderá atrasar a implantação de lavouras. O cenário, porém, não é uniforme: as projeções indicam recuperação gradual da umidade do solo em dezembro e janeiro no oeste da Bahia, sul e oeste do Maranhão e sudoeste do Piauí.
El Niño pode atingir intensidade muito forte a partir de novembro
O fortalecimento do fenômeno é acompanhado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Segundo os dados da NOAA citados no boletim federal, as anomalias de temperatura superaram 3 °C em áreas de referência das porções central e leste do oceano em outubro.
As projeções dos centros internacionais de meteorologia indicam continuidade do El Niño pelo menos até o primeiro trimestre de 2027, com intensidade forte a muito forte. Para novembro, dezembro e janeiro, a perspectiva é de um evento muito forte.
Os efeitos esperados, entretanto, variam conforme a região brasileira.
No Sul e em partes do Sudeste e Centro-Oeste, a previsão aponta maior probabilidade de chuvas acima da média histórica, cenário já abordado na cobertura anterior do 2ViaOnline sobre os riscos do El Niño na Região Sul. Já em grande parte do Norte e em áreas do Nordeste e Centro-Oeste, predominam condições favoráveis a precipitações abaixo do normal.
As temperaturas tendem a permanecer acima da média em quase todo o país, principalmente no Norte. O Rio Grande do Sul apresenta um comportamento diferente, com tendência de temperaturas inferiores aos valores climatológicos.
A distribuição das chuvas também modifica os riscos. Enquanto o Sul permanece sujeito a cheias e elevações dos níveis dos rios, a persistência do calor e da baixa precipitação no Norte pode favorecer a propagação de incêndios.
Para o trimestre de novembro de 2026 a janeiro de 2027, o Cemaden classificou 307 municípios em Alerta Alto e outros 464 em Alerta para risco de fogo. Trata-se de uma previsão de risco, não de registro de incêndios já ocorridos.
Defesa Civil orienta população a acompanhar alertas oficiais
Diante das projeções, as instituições responsáveis pelo Painel El Niño recomendam que estados e municípios atualizem seus planos de contingência e intensifiquem o acompanhamento das condições meteorológicas e hidrológicas.
Para a população, a orientação é acompanhar as previsões e os avisos oficiais, conhecer as áreas de risco do município e manter o cadastro para recebimento de alertas da Defesa Civil.
O cadastro por SMS pode ser realizado mediante envio do CEP da localidade de interesse para o número 40199. Também é possível receber alertas pelo WhatsApp, no número (61) 2034-4611, seguindo as orientações do atendimento automatizado.
Os canais e procedimentos estão disponíveis na página oficial de alertas da Defesa Civil.
A evolução do El Niño continuará sendo acompanhada pelas instituições federais. As previsões para os próximos meses representam tendências climáticas e podem ser atualizadas conforme novas observações oceânicas e atmosféricas forem incorporadas aos modelos.
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