A Confederação Nacional da Indústria (CNI), com sede em Brasília (DF), alertou para o risco de restrições na oferta de biocombustíveis e aumento dos preços no Brasil caso a expansão da produção não acompanhe o crescimento previsto da demanda. O diagnóstico consta de um estudo divulgado na quarta-feira (28 de outubro), que analisa o mercado nacional de combustíveis e os desafios para atender às metas de descarbonização nos próximos anos.
O alerta não representa uma situação atual de desabastecimento. Segundo o levantamento, o problema poderá surgir se os investimentos em novas unidades produtivas não avançarem no ritmo necessário. Os riscos são maiores nos mercados de diesel verde e combustível sustentável de aviação (SAF), mas também atingem o etanol e o biodiesel em determinados cenários.
A análise integra a publicação Combustíveis no Brasil: análise do mercado e perspectivas para a descarbonização. O documento mostra que os biocombustíveis responderam por cerca de 25% da energia consumida no transporte brasileiro em 2025, mas aponta dificuldades para sustentar a expansão dessa participação sem ampliar a capacidade efetiva de produção.
Produção de biodiesel depende de investimentos a partir de 2028
O biodiesel é um dos principais pontos de atenção. No cenário-base considerado pela CNI, a demanda brasileira poderá alcançar aproximadamente 18 bilhões de litros em 2035, um crescimento de cerca de 80% em relação ao consumo de 2025.
A capacidade instalada autorizada no país, segundo dados da ANP utilizados no estudo, é de 15,7 bilhões de litros anuais. Entretanto, considerando uma taxa hipotética de utilização de 85% das instalações, a produção efetiva poderia atingir 13,4 bilhões de litros por ano, volume suficiente para acompanhar a demanda projetada apenas até 2027.
A continuidade da expansão dependerá, portanto, da entrada em operação de novas estruturas industriais. Os projetos anunciados poderão elevar a capacidade efetiva para aproximadamente 18,6 bilhões de litros anuais, volume suficiente para atender ao cenário-base até 2035.
A margem, porém, diminui se o percentual obrigatório de biodiesel no diesel ultrapassar 20%. Em uma simulação com mistura de 25%, limite máximo permitido pela legislação, o consumo alcançaria 22,2 bilhões de litros em 2035, superando a capacidade produtiva potencial considerada no estudo.
Nesse caso, novos investimentos seriam necessários além daqueles já anunciados. A CNI adverte que atrasos na expansão das usinas poderão provocar insuficiência de oferta e pressionar os custos do diesel comercializado no mercado brasileiro.
Demanda por etanol pode superar 60 bilhões de litros em cenário específico
O mercado de etanol apresenta outro desafio. A projeção central utilizada pela CNI indica crescimento do consumo de 34,4 bilhões de litros em 2025 para aproximadamente 46,2 bilhões de litros em 2035, considerando o etanol anidro, misturado à gasolina, e o hidratado, comercializado diretamente nos postos.
A situação se torna mais complexa quando são consideradas as metas indicativas do RenovaBio, política nacional que utiliza Créditos de Descarbonização (CBIOs) para incentivar a substituição de combustíveis fósseis.
Pelos cálculos do estudo, a emissão potencial desses créditos poderá ficar 15,2 milhões de CBIOs abaixo da meta indicativa estabelecida para 2035. Se esse déficit fosse compensado exclusivamente pela ampliação da produção de etanol hidratado, seriam necessários aproximadamente 15,2 bilhões de litros adicionais.
Nessa hipótese, a necessidade total de produção de etanol chegaria a cerca de 61,3 bilhões de litros em 2035. Trata-se de uma simulação condicionada à manutenção das metas e à forma escolhida para atender à demanda por créditos, não da previsão central de consumo.
A dificuldade está na diferença entre capacidade instalada e produção efetiva. Segundo os dados utilizados pela CNI, o Brasil possuía, em junho de 2026, instalações autorizadas para produzir aproximadamente 103,5 bilhões de litros de etanol por ano. Entretanto, a taxa média histórica de utilização das usinas gira em torno de 35%, principalmente em razão da sazonalidade das safras, da disponibilidade de matéria-prima e da concorrência com a fabricação de açúcar.
Mantido esse nível de aproveitamento, a capacidade efetiva corresponderia a aproximadamente 36,2 bilhões de litros anuais. Mesmo com a entrada em operação de todas as ampliações consideradas no levantamento, o volume poderia chegar a 43,6 bilhões de litros, ainda abaixo da demanda central projetada para 2035.
O estudo considera, portanto, que a capacidade produtiva efetiva, nas condições analisadas, não seria suficiente para atender simultaneamente à demanda projetada e ao volume adicional necessário para eliminar o déficit de créditos.
A consequência possível seria uma valorização persistente dos CBIOs. Como sua aquisição representa um custo para as distribuidoras, parte dessa pressão poderá alcançar os preços finais dos combustíveis.
Diesel verde e combustível de aviação enfrentam maior incerteza
Os riscos identificados pela CNI são especialmente relevantes nas cadeias de diesel verde e SAF, ainda em desenvolvimento no Brasil.
No caso do diesel verde, a legislação permite a adoção de mistura obrigatória de até 3% ao diesel comercializado no país, mas o percentual efetivo depende de decisão regulatória. Caso o limite máximo seja adotado, a demanda potencial poderá atingir aproximadamente 2,5 bilhões de litros em 2035.
O levantamento aponta, entretanto, que o Brasil ainda não possui uma oferta comercial estruturada desse combustível em escala suficiente para atender a um mercado com essa dimensão.
Na aviação, a pressão regulatória está mais próxima. O Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV) prevê o início das metas obrigatórias de redução de emissões em 1º de janeiro de 2027, começando em 1% e avançando progressivamente até 10% em 2037.
Segundo a CNI, não havia plantas dedicadas de produção de SAF autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em operação no país no período analisado. A produção comercial existente utilizava o coprocessamento em refinarias, com participação limitada de matérias-primas renováveis.
Os dez projetos comerciais considerados no estudo poderiam alcançar capacidade conjunta de 3,6 bilhões de litros anuais em 2035, caso fossem integralmente implementados. Esse volume seria suficiente, em princípio, para atender às projeções decorrentes exclusivamente do ProBioQAV, mas não aos cenários de maior demanda que também consideram o uso de SAF para cumprimento de compromissos internacionais.
A concretização desses investimentos, contudo, ainda envolve incertezas. Grande parte dos projetos não possuía autorização da ANP nem cronogramas consolidados de implantação no período analisado.
Além das instalações industriais, a expansão do SAF e do diesel verde dependerá da disponibilidade de matérias-primas e de hidrogênio de baixo carbono, utilizado em importantes rotas de produção. A competição por esses insumos também poderá dificultar o crescimento simultâneo dos dois mercados.
CNI propõe medidas para reduzir riscos de abastecimento
Diante das projeções, a entidade defende uma atuação coordenada entre governo e setor produtivo para evitar que as exigências de consumo avancem mais rapidamente do que a disponibilidade dos combustíveis.
Entre as recomendações está a criação de um Comitê Permanente de Monitoramento de Biocombustíveis, responsável por acompanhar a capacidade efetiva de produção, os investimentos anunciados, a disponibilidade de matérias-primas e os riscos de abastecimento.
A CNI também propõe uma política específica de comércio exterior para facilitar importações quando a oferta nacional for insuficiente e permitir medidas excepcionais e temporárias sobre exportações em situações de pressão sobre o abastecimento ou os preços.
As propostas incluem ainda instrumentos de financiamento, contratos de longo prazo e mecanismos de compartilhamento de riscos para estimular a produção de diesel verde e SAF. Outra recomendação é avaliar os efeitos das políticas de preços dos combustíveis fósseis sobre a competitividade dos renováveis.
Conforme o comunicado oficial divulgado pela CNI, o desafio está em conciliar o avanço da transição energética com a segurança do abastecimento e condições econômicas capazes de sustentar os investimentos industriais.
O estudo indica que ampliar metas de consumo não garante, por si só, a disponibilidade dos combustíveis. Sem a correspondente expansão da produção, o crescimento do mercado poderá resultar em restrições de oferta e maior pressão sobre os preços pagos pelos consumidores.

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